domingo, 25 de julho de 2010

Barrinhas verde-amarelas


Primeira fabricante de barras de cereais orgânicas do país privilegia frutas brasileiras e mão de obra nacional
por Chris Martinez
Mesmo que tivesse deslizado por ondas perfeitas, o surfista Leandro Farkuh sempre saía da praia incomodado quando dava as costas para o mar e via o lixo esquecido nas areias da praia. Aos 19 anos, sonhava em preservar a natureza. Foi com esse princípio que ele lançou a sua primeira empresa, a Renk’s, em 1999, pioneira na fabricação de barras de cereais orgânicas do Brasil.

Ao focar nos orgânicos e seguir as regras do comércio justo, a Renk’s conseguiu seu espaço no competitivo mercado de barras de cereais, que tem mais de 40 marcas diferentes. Farkuh pretende ter 5% de participação no setor até o fim de 2010 e faturar R$ 8 milhões, 25% a mais que no ano passado.

A empresa privilegia frutas brasileiras, como açaí e guaraná. Alguns sabores levam castanhas compradas de uma cooperativa de agricultores ecológicos. A Renk’s limitou o atendimento a grandes cadeias de varejo, para quem produzia marca própria, e decidiu criar as suas marcas, Bio2 e eBar, vendidas em embalagens de plástico reciclado.

RESPONSABILIDADE SOCIAL
A Renk's compra a castanha utilizada em suas barras de cereais da Cooperagrepa, cooperativa dos agricultores ecológicos do Portal da Amazônia (MT), formada por uma comunidade de 720 famílias

NATUREZA EM PRIMEIRO LUGAR
As embalagens das barrinhas da Renk's são de plástico reciclável e não metalizado, para não prejudicar o meio ambiente

FRUTOS DA TERRA
O objetivo da empresa é privilegiar o uso de frutas brasileiras, como a banana orgânica, cultivada em Miracatu, no Vale do Ribeira (SP)

Empreendedores fabricam sapatos infantis confortáveis


O australiano Scott McInerney e a brasileira Ana Cláudia McInerney decidiram abrir em Franca, interior de São Paulo, um negócio para aproveitar o couro abundante da região: sapatos infantis confortáveis. Formado em ciências contábeis, Scott estudou estilismo e em menos de um ano desenvolveu os primeiros pares. Apresentou-os em lojas da costa australiana e voltou ao Brasil com 3 mil pares de sapatinhos encomendados. Nasceu assim, em 2005, a Tip Toey Joey. A produção de 22 mil pares mensais é toda entregue a lojistas, que revendem cada par por cerca de R$ 89.

“Nosso investimento inicial na empresa foi relativamente baixo, de apenas R$ 70 mil, incluindo o material necessário para produzir os primeiros 3 mil pares de sapatinhos vendidos na Austrália. Para viabilizar o negócio no Brasil, pedimos dinheiro emprestado a nossos parentes. Conseguimos recuperar o valor integral em cerca de dois anos e meio. Foi um período de apreensão porque esperávamos um retorno antes desse prazo. Algo que atrasou esse retorno inicial foram as cores – erramos muito em algumas de nossas escolhas iniciais. Compramos dez tonalidades diferentes e algumas demoraram muito para sair. Para acertar o passo, durante os dois primeiros anos da empresa contamos com a ajuda do Sebrae. Também tivemos uma orientação vital no modelo de negócio por meio do projeto Incubadora de Empresas. Deu tudo certo. Hoje nós temos 150 funcionários, exportamos 30% e vendemos o restante no Brasil”.

TIP TOEY JOEY QUEM SÃO: Scott McInerney, 38 anos, e a esposa Ana Claudia McInerney, 40 anos
O QUE FAZEM: calçados de couro para crianças de 0 a 5 anos. Tip Toey significa na ponta dos pés; Joey, canguru bebê

Empreendedor fatura com venda de tênis exclusivos


Há dois anos, quando abriu a Zig Zag Shoes, loja especializada em tênis de edições limitadas, o empresário Anderson Moreira não imaginava que poderia crescer tão rapidamente. Com uma média de 600 clientes por mês, ele se prepara para inaugurar a quarta unidade e fechar 2010 com faturamento de R$ 2,5 milhões
Por Katia Simões
Sou skatista e apaixonado por tênis diferentes. Quando eu era adolescente, pouco se falava no Brasil sobre a cultura sneakers — colecionadores que adoram comprar calçados de edições limitadas. Há dois anos, depois de entrar em contato com as grandes marcas, decidi abrir a primeira loja voltada a esse nicho de consumidores, em Santa Bárbara d’Oeste. Hoje, temos cerca de 400 modelos à disposição, com no máximo 50 pares de cada. Os preços variam entre R$ 200 e R$ 500. Há casos em que as vendas se esgotam em questão de horas. Foi o que aconteceu com os 14 pares do Nike SB Paul Rodriguez 3, assinados pelo campeão mundial de skate. Eu mesmo não resisti e somei mais um modelo à minha coleção de 17 pares de tiragem limitada. Há um ano, abrimos uma segunda loja, em Americana, e também um site de comércio virtual. O próximo passo será a abertura de dois novos pontos, em Limeira e Sumaré (também no interior de São Paulo).”

ZIG ZAG SHOES QUEM É: Anderson Rogério Moreira, 26 anos
O QUE FAZ: tem duas lojas físicas no interior de São Paulo, em Americana e Santa Bárbara d’Oeste, e uma virtual, especializadas na venda de tênis de coleções limitadas

GESTÃO - Hora da virada no Flamengo


Trazer o maior craque da história do time rubro-negro de volta foi apenas a primeira jogada de Patrícia Amorim, a nova presidente do clube. Agora, ela quer sanear as finanças do time carioca e transformá-lo em um modelo de gestão
Marta Barcellos
Esta reportagem, publicada na edição impressa da Pequenas Empresas & Grandes Negócios de julho/2010, foi finalizada antes do caso do goleiro Bruno, do Flamengo, vir à tona. Nesta matéria, não abordamos esse tema, mas sim os desafios de gestão de Patrícia Amorim, a nova presidente do clube. Você pode acompanhar o "caso Bruno" no site da revista Época.
Desde que deixou os gramados, consagrando-se como o maior jogador da história do Flamengo, Zico recusava convites para assumir cargos no clube. Parecia inflexível, até o apelo partir de uma mulher que ele conheceu ainda menina, nas piscinas do Flamengo. Naquela época, enquanto o craque fazia sessões de fisioterapia na água, Patrícia Amorim aproveitava o tempo livre não para pedir autógrafos, mas para vender rifas. Ajudar a equipe de natação, que ela naturalmente liderava, era a sua motivação. “Ela já se mostrava uma bela administradora”, diverte-se Zico, diante da recordação dos seus primeiros contatos com a atual presidente do Clube de Regatas do Flamengo.

Empossada em janeiro de 2010, Patrícia marcou o primeiro gol de sua gestão ao conseguir cooptar Zico para assumir a direção do futebol, em junho. O reconhecimento veio até dos torcedores mais fanáticos, reticentes com a eleição de Patrícia, mais associada aos esportes olímpicos do que ao futebol. A ex-atleta não esconde o alívio por passar o bastão do futebol a Zico, depois de seis meses experimentando o clima de intrigas relacionadas a jogadores, contratações e escalações. Não que ela não esteja acostumada aos ambientes competitivos. Como nadadora, Patrícia acumulou 28 títulos de campeã em diversas modalidades; como vereadora pelo PSDB, lutou pelas causas esportivas durante três mandatos consecutivos na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Foi o estilo forjado na política dos esportes que ela levou para a gestão do clube. “A Patrícia tem um jeito peculiar de convencer os outros”, conta Cristina Callou, vice-presidente de esportes olímpicos do Flamengo e amiga desde que as duas começaram a nadar juntas, aos 7 anos. “Ela ouve todo mundo, deixa falarem bastante, e no final explica por A mais B por que vai fazer da maneira que ela considera melhor.” Sua diplomacia foi fundamental para trazer Zico de volta. “Aceitei o convite por causa da credibilidade da Patrícia, porque vi equilíbrio e ponderação em suas palavras”, diz o jogador.

Mas somente diplomacia não seria suficiente para garantir o retorno. O “link” que viabilizou a contratação do craque foi financeiro e envolveu uma parceria com patrocinadores — uma operação rotineira em clubes de futebol, quase sempre donos de pesados passivos, principalmente trabalhistas. No caso do Flamengo, Patrícia recebeu o clube com uma dívida de cerca de R$ 350 milhões: ela vive diariamente o desafio de aumentar receitas e reduzir despesas. Nas reuniões com o vice-presidente de administração, Michel Levy, as discussões são sempre tensas. “Pegamos o time com muitos problemas. Foi uma vitória colocar os salários e contas em dia”, diz Levy. “Às vezes nos vemos numa ‘escolha de Sofia’”, completa Patrícia. “Temos de optar entre pagar uma pendência jurídica ou o salário de um atleta.”

Levy faz parte do clima competitivo ao qual Patrícia está acostumada. “Aqui todo mundo grita. Acho ótimo, porque desperta em mim uma capacidade de controle, e aí mando as pessoas se acalmarem”, diz ela. Além de renegociar dívidas e colocar salários em dia, a dupla formada por Patrícia e Levy implementou outra medida urgente: acabar de vez com as contas atrasadas. “Havia uma cultura de deixar atrasar. Até que Levy ameaçou demitir quem trouxesse conta vencida”, diz.

Para sanear as finanças do Flamengo, Patrícia decidiu ir atrás de especialistas. Mas nem sempre era possível acenar com um belo salário — alguns cargos, como as vice-presidências, não são remunerados. Por isso, a opção foi invocar a paixão de torcedores-empresários. Foi assim que, depois de conquistar Zico, ela convocou o empresário Alexandre Wrobel, flamenguista e sócio da Construtora Wrobel, para a vice-presidência de patrimônio. O cargo foi recriado depois que os primeiros levantamentos constataram o abandono de muitos ativos, como uma antiga concentração em São Conrado e 40 apartamentos vazios no Morro da Viúva, no bairro do Flamengo. “Como ele tem conhecimento de causa, irá fazer uma análise e descobrir como esse patrimônio pode render”, explica.

Uma auditoria financeira completa já começou a ser feita pela consultoria KPMG. “Na primeira reunião, eles brincaram, dizendo que precisávamos fundar o clube de novo”, conta Patrícia. Outra orientação importante virá da equipe coordenada pelo consultor Vicente Falconi, do Instituto de Desenvolvimento Empresarial (INDG), cuja contratação está sendo viabilizada por outra opereção de captação de recursos. “Ele tem experiência em sanear finanças, reduzindo despesas e aumentando receitas em pouco tempo.” A baixa receita com o licenciamento de produtos — apenas R$ 1,7 milhão no ano passado, um terço do faturamento do São Paulo Futebol Clube — é apenas a face mais visível de um dos problemas do time: o mau aproveitamento do principal ativo, os torcedores.

Organizações privadas sem fins lucrativos, os clubes de futebol não são empresas, embora devam ser administrados como tal. “O grande desafio dos clubes, hoje, é profissionalizar a gestão”, diz Ronaldo Chataignier, coordenador do Núcleo de Estudos em Esportes da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Como os cargos só são remunerados a partir do nível de diretoria, as vice-presidências acabam acomodando interesses políticos”, diz. “Daí a semelhança com as organizações da esfera pública.” Se os clubes fossem transformados em empresas, diz ele, a maioria iria à falência, por conta dos enormes passivos construídos no passado. “As receitas são elevadas, mas as despesas são altíssimas, por causa da remuneração dos atletas e de todo o staff por trás deles.”

O aspecto financeiro, no entanto, não é o único complicador na gestão de um clube. Mesmo as diretorias mais profissionalizadas conhecem o dilema que acompanha o dia a dia dessas organizações: nem sempre um bom planejamento estratégico, que contemple o saneamento das finanças, se reflete no desempenho do time. “É preciso resistir às pressões para rasgar o planejamento e fazer a contratação milionária que poderá levar ao título”, diz Chataignier.

É nessa hora — o dia seguinte a uma derrota — que um torcedor pode interromper o almoço em família de Patrícia para palpitar sobre a escalação do time. “Essa é a pior parte”, diz. “Algumas pessoas perdem a noção.” Por outro lado, a presidente sabe da importância para o negócio desse torcedor fanático, que pode se tornar sócio e consumidor. “Gestão e resultado são coisas separadas. Meu papel é reinvestir o lucro, dando estrutura para o time entrar em campo, na quadra, na piscina. Mas o grande negócio de um clube é a paixão. Aí vem a questão: como se administra paixão?” Patrícia tem um mandato de três anos para descobrir. Mas, a julgar pelos primeiros lances do jogo, ela já encontrou a melhor estratégia para chegar ao gol.

3 LIÇÕES DE GESTÃO Uma boa rede de contatos, um aparato de especialistas e a estratégia certa para as finanças. Eis a receita de sucesso de Patrícia Amorim:

NETWORKING
“O mundo é corporativo. Quanto mais relações, mais fácil é sair de uma situação adversa.”

ESPECIALISTAS
“É fundamental se cercar de pessoas que conhecem o assunto melhor que você. Se quero contratar um pivô para o time de basquete, tenho que ouvir muita gente.”

CLAREZA
“Quando atleta, ouvi muitas vezes que o time não tinha dinheiro, e ponto final. Hoje, chamo para conversar, explico por que a prioridade no momento é outra e digo qual é a estratégia para conseguir aquele recurso.”

Sebrae vai preparar micro e pequenas para a Copa 2014

Megavento esportivo vai gerar oportunidades de negócios em diversos setores, como turismo, comércio, transportes e tecnologia da informação
Da Agência Sebrae de Notícias
O Sebrae vai investir R$ 36 milhões de recursos próprios em ações de capacitação, desenvolvimento de negócios e mapeamento das oportunidades que a Copa do Mundo de 2014 vai gerar para as micro e pequenas empresas. Juntamente com os aportes das instituições parceiras, o total de recursos no programa do Sebrae para a Copa 2014 já chega a R$ 50 milhões, informou o diretor-técnico do Sebrae, Carlos Alberto dos Santos.

O diretor destacou que é natural pensar que a Copa vai beneficiar a cadeia produtiva do turismo, porém os investimentos públicos e privados que começam a chegar nas doze cidades-sede definidas pela FIFA vão significar muito mais. Segundo Carlos Alberto, o megaevento esportivo vai gerar avanços em diversos setores produtivos e o desenvolvimento do país como um todo.

“ O viés da Copa pode ser muito de turismo, mas vamos perceber que ele avança em muitas direções, abrangendo vários setores”, afirmou o diretor, ao abrir a segunda reunião do Comitê Diretivo do Sebrae para a Copa 2014, nesta manhã (14), em Inhotim, no município de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. A reforma de um estádio, por exemplo, envolverá diversos tipos de empreendimentos, negócios, produtos e serviços, tais como, tecnologia da informação (TI), comércio e empreendedores individuais, entre outros, acrescentou.

Participaram da reunião dirigentes das unidades do Sebrae nas doze cidades-sede onde ocorrerão os jogos da próxima Copa do Mundo, gerentes e coordenadores das carteiras de projetos envolvidas com a preparação, execução e legado do megaevento esportivo. Representantes dos comitês municipal (Prefeitura de Belo Horizonte) e estadual (Minas Gerais) para a Copa 2014 também marcaram presença no evento.

“Nossa atuação não estará envolvida com os jogos, mas com o movimento da economia gerado por eles e o avanço dos pequenos negócios nas regiões das cidades-sede”, enfatizou o diretor. “A Copa possui um efeito catalisador enorme. Temos que nos antecipar, senão as coisas não acontecerão como gostaríamos”, disse ele. “Barcelona se reinventou após a Olimpíada”, exemplificou.

Do ponto de vista das finanças públicas, cidadãos e contribuintes devem debater o significado do megaevento esportivo para o país. “Para o Sebrae, nos interessa o que ele significa para os pequenos negócios, antes, durante e depois dos jogos”, insistiu. A enxurrada de projetos e solicitações de apoio e patrocínio que estão chegando ao Sistema Sebrae só será avaliada se estiver relacionada com a melhoria da qualidade, e gestão dos produtos e serviços prestados pelas MPE, complementou o diretor.

Pequenas empresas paulistas começam a se preparar para a Copa de 2014

Pesquisa da Associação Comercial de São Paulo com instituto Data Popular revela que 73% dos entrevistados esperam faturar mais na comparação com o torneio deste ano
Agência Sebrae
Finda a Copa do Mundo da África do Sul, as empresas paulistanas começam a se preparar para o mundial de 2014 que será no Brasil. Uma pesquisa da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), realizada em parceria com o instituto Data Popular, revela que 60% dos comerciantes da capital afirmam que a Copa 2014 será um bom período para seus negócios, sendo que 73% dos entrevistados esperam faturar mais na comparação com o torneio deste ano.

"Uma prova desse entusiasmo é que 62% pretendem organizar seus negócios para a Copa brasileira nos próximos três anos, enquanto 5% dos lojistas ouvidos já estão fazendo um planejamento especial para 2014", afirma Sandra Turchi, superintendente de Marketing da Associação Comercial. A pesquisa ouviu 121 proprietários de bares, restaurantes, supermercados, padarias e lojas de vestuário na cidade de São Paulo, nos dias 12 e 13 de julho. Dos entrevistados 80% são microempresas e 17% pequenos negócios.

Os pequenos negócios terão oportunidade de se capacitar por meio do Sebrae. A entidade vai investir R$ 36 milhões de recursos próprios em ações de capacitação, desenvolvimento de negócios e mapeamento das oportunidades que a Copa do Mundo de 2014 vai gerar para as micro e pequenas empresas. Juntamente com os aportes das instituições parceiras, o total de recursos no programa do Sebrae para a Copa 2014 já chega a R$ 50 milhões.

A pesquisa mostra também que 71% dos lojistas acreditam que seus negócios serão afetados positivamente se seleção brasileira apresentar um bom desempenho na competição.

Quem se preparou para a Copa da África do Sul não se arrependeu: 96% dos comerciantes que aumentaram seus estoques registraram saldo positivo na saída dos produtos. Além disso, 72% daqueles que fizeram alguma promoção relacionada à Copa disseram que a iniciativa correspondeu com as expectativas de vendas.

“Anualmente, 19 milhões de brasileiros participam de promoções e sorteios. Por isso, iniciativas como essa sempre ajudam a atrair o consumidor", diz Renato Meirelles, sócio-diretor do Data Popular.

Capital de negócios

O veto da Fifa ao estádio do Morumbi não desanimou o estado de São Paulo. Dê olho nos negócios e volume de recursos que serão gerados com a Copa de 2014, o estado e a cidade de São Paulo não estão de olho nos jogos, mas sim no Congresso da Fifa e no Centro de Imprensa.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o prefeito Gilberto Kassab e o governador Alberto Goldman se reúnem na próxima quarta-feira (21) com o presidente do COL/2014 (Comitê Organizador Local), Ricardo Teixeira, para anunciar que São Paulo desistiu da abertura da Copa 2014. Em troca da partida inaugural, a cidade ficaria com o Congresso da Fifa e o IBC (International Broadcast Centre, ou centro internacional de mídia).

Segundo o jornal, técnicos das equipes de turismo dos governos classificam os dois como "eventos que realmente importam", pois trazem para a cidade uma quantidade muito grande de turistas. Apenas o Congresso da Fifa reúne cerca de 2.000 dirigentes. Na África do Sul, o centro de imprensa mundial credenciou cerca de 13 mil jornalistas.

O IBC e o Congresso da Fifa, por sua vez, trazem muitos profissionais que ficam na cidade por longo período e que gastam mais dinheiro do que turistas comuns com hotéis, refeições e transporte.

As lições gerenciais de Dunga

O ex-técnico da seleção brasileira de futebol fracassou em seu cargo com muitos erros cometidos também no ambiente empresarial. Vale ficar atento a essas falhas para não repeti-las no seu negócio
Por André Acioli e Augusto Uchoa*
O Brasil caiu fora da Copa da África do Sul nas quartas-de-final, bem antes do que muitos brasileiros esperavam. Agora, com a nossa derrota e o fim do torneio, voltamos ao mundo de onde acreditamos ter saído por alguns breves momentos: o mundo corporativo. Mais calmos, analisamos o que, para nós, foi um despencar das ações do Brasil na bolsa futebolística mundial. Mas o que o fracasso da seleção comandada por Dunga tem a ver com as organizações? Que lições podemos tirar desse filme com final pouco feliz?

Objetiva e sucintamente, como deve ser toda análise, abordaremos os pontos que fazem de Dunga mais um mau gestor.

1- Não ouvir o mercado consumidor - Dunga virou as costas para a opinião de um país inteiro. Ele compôs um time, não uma seleção como outras que lá estavam. O mercado consumidor – nesse caso formado por expectadores, jornalistas, torcedores e peladeiros - esforçou-se ao tentar mostrar isso ao supremo gestor. Assim como em muitas empresas, os gestores parecem surdos às vozes do mercado, insistem em oferecer produtos conforme suas próprias percepções. Num mercado competitivo, a concorrência inova a cada minuto. Ganha credibilidade quem faz, se expõe e investe em produtos cuja qualidade possa ser testada, aprovada e comprovada pelo mercado. Dunga convocou e pôs em campo produtos/jogadores de qualidade duvidosa (assim entendido pelo mercado). Não eram produtos que encabeçariam a lista dos top of mind de qualquer brasileiro; eram sim, os que ele, Dunga, gostava mais.

2- Levar a seleção (ou empresa) a perder a identidade – A seleção brasileira perdeu a identidade, teve seu DNA alterado, e jogou de uma forma diferente. O Brasil esqueceu o futebol ofensivo. Uma seleção que a história mundial reconhece como aquela que joga avançada, que ataca e que objetiva o gol parece ter perdido o foco. Jogar bonito e fazer gols sempre estiveram associados ao futebol brasileiro; vencer era consequência. No mundo corporativo, é o mesmo que uma empresa nascer e crescer com o DNA dos seus idealizadores, focada na satisfação do cliente, e que, como num toque de mágica – e das ruins – passa a ter foco no produto, abandonando tudo o que a fez adorada pelo mercado e, remando contra a corrente, passa a se preocupar mais com preço do que com valor.

3- Inutilizar o poder da marca - A marca Brasil é vitoriosa, invejável e intocável. O Brasil é penta! O certificado de qualidade da seleção brasileira de futebol é tão forte quanto o de uma multinacional. Tivemos produtos como Garrincha, Nilton Santos, Vavá, Zico, Pelé. Dunga não soube explorar bem o poder do branding que, dentre outras coisas, serve até para inibir a concorrência. Na verdade, a descaracterização da marca, traduzida pela relação de produtos que apresentou, gerou efeito contrário. A marca Brasil passou a ser vista pelos concorrentes como algo a ser humilhado, um Golias, agora fraco. Quantas não são as empresas cujas marcas, ainda de pouco valor percebido, aproveitam-se dos espaços deixados pelas maiores e mais fortes. Num mercado competitivo e globalizado, qualquer empresa, de qualquer nacionalidade, pode explorar a demanda fomentada pela líder e se beneficiar disso, principalmente quando a líder, fragilizada pelas falhas que lhes percebem os tradicionais consumidores, deixa de satisfazê-los.

4- Não saber lidar com a pressão da função – Dunga era um gerente. Você conhece algum gerente que não trabalhe sob pressão? Muitos, assim como ele, se veem obrigados a suportar também altas doses de tensão. Há quem diga que o gerente de uma grande empresa sofre o “efeito-sanduíche”, pressão de cima (diretores, acionistas) e de baixo (linha de frente, subordinados). Isso nos parece lógico. No caso do nosso técnico, Dunga não se mostrou suficientemente preparado para atingir as metas que lhe foram estabelecidas, mostrou falta de inteligência emocional, incomodou-se com a pressão e com a tensão inerentes ao cargo, xingou, debochou de quem poderia ampará-lo - a mídia - e, ainda pior, atestou sua incompetência para diretores e acionistas (FIFA, CBF e povo brasileiro). Bem, pelo menos diretores são menos temidos que a mídia. Dunga ficou sem palavras quando tentou justificar sua opção por produtos outros que não os reclamados pelo mercado consumidor: Neymares, Gansos e Ronaldinhos Gaúchos, por exemplo. Todos os antecessores foram submetidos a igual ou pior pressão e souberam lidar melhor com ela.

5- Tomar como base para a qualidade mercados pouco competitivos - O Brasil venceu a Copa América, das Confederações e a Sul-Americana. Mesmo com DNA alterado, sem brilhantismo e esquema tático convincente, teve bons resultados. Isso acontece quando os produtos são testados em mercados menos competitivos, menos exigentes. Sem muita margem e sem gordura, bateram as metas propostas pelos acionistas. Venceram. Todos têm motivo para ficar felizes, mas não eufóricos. Os bons resultados obtidos em maus mercados criam falsas ilusões de que igual sucesso acontecerá em outras praças. Exatamente essa falácia credenciou a arrogância do gerente em manter uma equipe medíocre, sem os melhores. Dunga bateu metas trimestrais nos mercados em que era líder, mas não foi capaz de crescer no trimestre pico da sazonalidade, no momento mais importante para construção do seu resultado anual de vendas (a Copa do Mundo).

6- Ignorar a necessidade de um plano alternativo – Vendo que os resultados trimestrais não se repetiriam no resultado anual, Dunga deveria ter partido para a execução de um plano alternativo que, decerto, já teria sido hipótese aventada por qualquer gerente pouco mais competente. Dunga foi gerente de um plano só. A mudança do cenário fez com que concorrentes sem tanta expressão ganhassem força competitiva. Nossos melhores produtos, Kaká e Luís Fabiano, não estavam, certo momento, disponíveis no estoque. A demanda existiu. Havia produtos substitutos? Que não perfeitamente substitutos, mas havia produtos que proporcionassem benefícios adicionais, tais como maior velocidade, melhor lançamento ou toques mais precisos? Não, não havia nada disso. Demandas de mercado não atendidas por sua empresa acabam sendo atendidas por outra. Não se pode subestimar a demanda, principalmente quando se trata de um produto tradicional, reconhecidamente de qualidade. O mercado tinha expectativas de ver a seleção brasileira. Expectativas frustradas, clientes insatisfeitos. Não havia no plantel produtos com qualidade suficiente para atender tal exigente demanda. Dunga não tinha uma equipe razoável para variar esquema tático nem substituir jogadores quando precisasse. A seleção brasileira foi uma empresa engessada, como é o raciocínio do seu gestor. Assistimos todos, via satélite, a ascensão de outras equipes que souberam se adaptar ao novo mercado e explorar as fragilidades das antigas concorrentes.

8- Agir como um gerente à moda antiga– Dia 2 de julho. Fim de jogo. O Brasil é eliminado pela Holanda. Com o objetivo não atingido, não cabe apontar culpados ou atribuir à confluência dos astros o triste resultado. Os produtos não foram capazes de gerar os resultados de venda e participação de mercado conforme todos esperavam. Com hombridade, um bom gestor, líder de sua equipe e defensor dos ideais coletivos, imputaria a si próprio a escolha errada pelo portfólio de produtos e pelas errôneas estratégias adotadas. Alentaria sua equipe e, provavelmente, reuniria acionistas, diretores e grupos representativos de clientes para declarar suas falhas e sua incapacidade – fosse ela técnica ou psicológica – de, naquela situação, atingir o que dele era esperado. Somos humanos, falhamos. Assumir as próprias falhas é ser responsável, é atitude nobre, é deixar as portas abertas. Mas ser nobre seria esperar muito do nosso treinador. Vê-lo, como num gesto de gratidão, cumprimentar sua equipe ou, como de educação esportiva, reconhecer a superioridade do seu concorrente é hipótese sem propósito para quem, ao se deparar com empecilhos, mostra que não está preparado para o sucesso. Em passos firmes e largos, sem olhar para trás, Dunga abandona o campo imediatamente após o apito final. Isso, é voltar à “Era Ford” e dizer que o produto jamais será customizado porque à empresa não importa atender as necessidades ou desejos de seus clientes. Para vocês, clientes, o meu total desprezo.